No dia 7 de janeiro de 2026, foram publicadas as novas Dietary Guidelines for Americans 2025–2030, acompanhadas de uma representação gráfica que ficou conhecida como a “nova pirâmide alimentar”. A mensagem central é direta e, em certa medida, inédita para uma diretriz federal americana: comer mais comida de verdade e reduzir o espaço dos alimentos ultraprocessados.

Pode parecer óbvio, mas não é. Durante décadas, as recomendações oficiais priorizaram dietas pobres em gordura, ricas em carboidratos refinados e baseadas em alimentos altamente processados — um período que coincidiu com a escalada de obesidade, diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, fígado gorduroso e outros problemas crônicos relacionados à alimentação.

Essa mudança de discurso importa — e muito — quando olhamos para os dados atuais de saúde nos Estados Unidos. Hoje, mais de 40% das crianças e adolescentes em idade escolar convivem com pelo menos uma condição crônica, como obesidade, asma ou alterações metabólicas, segundo dados do Centers for Disease Control and Prevention. Ao mesmo tempo, análises com dados do NHANES mostram que cerca de 60–70% das calorias consumidas por crianças e jovens vêm de alimentos ultraprocessados — produtos ricos em açúcar, gordura, sódio e aditivos, e pobres em fibras e micronutrientes.

Nesse contexto, a nova diretriz não é apenas informativa. Ela é uma ferramenta prática de política pública, com impacto direto sobre programas federais — especialmente a alimentação escolar e a educação alimentar nas escolas americanas.

Há, sem dúvida, um avanço importante aqui. Pela primeira vez em décadas, o governo americano reconhece de forma mais explícita que o tipo de alimento importa tanto — ou mais — do que a distribuição de macronutrientes isoladamente. Isso representa uma ruptura relevante com antigos dogmas nutricionais e também um movimento politicamente sensível, já que os alimentos ultraprocessados são amplamente subsidiados, altamente lucrativos e profundamente enraizados no sistema alimentar.

Dito isso, nenhuma diretriz populacional é perfeita — embora algumas, como a brasileira e a australiana, sejam referências internacionais muito bem construídas.E, justamente por ter tanto peso prático — especialmente quando aplicada a crianças e adolescentes — a diretriz americana merece ser lida com atenção, contexto e senso crítico.

A seguir, organizo o que a nova pirâmide alimentar está propondo por categorias e compartilho a minha leitura clínica: onde ela avança, onde acerta em cheio — e onde eu colocaria alguns asteriscos importantes para quem trabalha com saúde, educação alimentar e políticas públicas.


1) Proteína: importância real, ênfase que pede cuidado

O que a diretriz destaca

A nova diretriz dá destaque à proteína como elemento central da alimentação, incentivando sua presença em todas as refeições e trazendo metas mais elevadas de ingestão diária. O texto enfatiza principalmente fontes de origem animal, como carnes e laticínios, embora também cite proteínas vegetais.

Essa orientação ganha relevância prática porque a diretriz será usada como referência para alimentação escolar e educação nutricional de crianças e adolescentes.

O que eu acho

Reconheço o mérito de reforçar a importância da proteína na composição das refeições. Para a população adulta — especialmente em contextos de envelhecimento saudável, manutenção de massa muscular e maior nível de atividade física — esse foco faz sentido.

Meu ponto de atenção surge quando essa ênfase é transposta, sem nuance, para crianças e adolescentes. As necessidades proteicas nessa fase da vida são significativamente menores do que as sugeridas para adultos, e o principal problema metabólico da infância hoje não é a baixa ingestão de proteína.

Meu asterisco

O risco dessa mensagem, especialmente no contexto escolar, é deslocar o foco do que realmente precisa ser corrigido. A obesidade infantil, o diabetes e as dislipidemias não estão associados à falta de proteína, mas sim a um padrão alimentar dominado por ultraprocessados, ricos em açúcar, sódio e calorias, e pobres em micronutrientes e fibras.

Incentivar “mais proteína”, sobretudo de origem animal e acompanhada de altas metas de laticínios, não resolve a raiz do problema e pode até ocupar espaço no prato que deveria ser destinado a verduras, frutas, leguminosas e variedade alimentar.

Proteína é importante — mas não é o protagonista que vai, sozinho, consertar a crise metabólica das crianças.


2) Gorduras: o fim do medo — com foco em comida de verdade

O que a diretriz destaca

A nova diretriz marca uma mudança importante ao reduzir a fobia histórica em relação às gorduras. O texto passa a enfatizar que elas devem vir, preferencialmente, de fontes integrais e minimamente processadas, como ovos, peixes ricos em ômega-3, nozes e sementes, laticínios integrais, azeitonas e abacate, além do uso de gorduras naturais no preparo, como o azeite de oliva.

Ao mesmo tempo, a diretriz mantém o limite clássico de até 10% das calorias diárias provenientes de gordura saturada, mas abre espaço para uma leitura mais contextualizada, chegando a citar manteiga e sebo como possíveis opções dentro de uma alimentação baseada em comida de verdade.

O que eu acho

Esse é um avanço relevante. Finalmente, vemos menos foco na gordura como vilã isolada e mais atenção à qualidade do alimento como um todo. A diretriz começa a reconhecer um ponto essencial: a matriz alimentar importa.

Queijo não é o mesmo que carne processada. Iogurte natural não equivale a bebidas lácteas adoçadas. A gordura dentro de um alimento inteiro se comporta de forma diferente daquela presente em produtos ultraprocessados.

Meu asterisco

O cuidado está na leitura prática da mensagem. Existe o risco de essa mudança ser interpretada como um “liberou geral”, quando não é disso que se trata. Gordura boa não é passe livre para ultraprocessados “low carb”, excesso de gordura saturada em dietas pobres em fibras ou padrões alimentares com pouca variedade vegetal.

O recado só faz sentido quando vem acompanhado de algo muito claro:mais vegetais + mais comida de verdade + menos ultraprocessados.

Além disso, respostas metabólicas às gorduras variam entre indivíduos. Genética, microbiota e padrão alimentar global pesam mais do que um nutriente isolado, o que reforça a necessidade de mais nuance e menos dogma.


3) Grãos: saem do centro, mas não precisam sair do prato

O que a diretriz destaca

A nova diretriz muda a hierarquia visual e conceitual dos grãos. Eles deixam de ocupar a base da pirâmide alimentar e passam a aparecer como parte de uma alimentação saudável, com ênfase clara em grãos integrais, e não em versões refinadas.

O documento reforça a escolha de grãos menos processados e desestimula o consumo frequente de produtos ultraprocessados à base de grãos, como pães brancos, massas refinadas, biscoitos e cereais açucarados.

O que eu acho

Essa mudança é bem-vinda. Durante décadas, a mensagem passada à população foi a de que pães, massas e cereais deveriam ser a base da alimentação — o que, na prática, significou uma base de farinha refinada e açúcar.

Retirar os grãos do centro da pirâmide ajuda a corrigir essa distorção e a lembrar que eles são parte do prato, não o prato inteiro.

Meu asterisco

O cuidado aqui é não transformar essa mudança em uma nova demonização dos carboidratos. Grãos integrais de verdade podem e devem fazer parte de uma alimentação equilibrada, quando aparecem em porções adequadas e dentro de um prato que também inclui vegetais, proteínas e gorduras naturais.

O problema central nunca foi o grão integral, mas o padrão alimentar baseado em grãos refinados, açúcar e ultraprocessados, muitas vezes consumidos isoladamente e em excesso.


4) Frutas e vegetais: o maior ganho de saúde por esforço

O que a diretriz destaca

O pacote oficial reforça de forma clara a importância de frutas e vegetais como parte essencial de uma alimentação baseada em comida de verdade. A diretriz enfatiza que eles podem ser consumidos frescos, congelados ou enlatados, o que é fundamental quando falamos de acesso e custo.

Para os vegetais, a recomendação aparece como três porções por dia, com incentivo a uma porção adicional sempre que possível.

O que eu acho

Esse é, sem dúvida, um dos pontos mais fortes da diretriz. Na prática, é aqui que acontece o maior “ganho de saúde por esforço”: aumentar a presença diária de verduras e legumes (crus e cozidos) e incentivar o consumo de fruta inteira, em vez de sucos.

Poucas mudanças têm impacto tão consistente sobre metabolismo, saúde intestinal, inflamação e prevenção de doenças crônicas.

Meu asterisco

Para isso funcionar de verdade — em escolas e em casa — vegetais e frutas precisam virar comida comestível no prato. Preparo, tempero, textura e logística importam. Educação alimentar real é menos cartaz e mais prato bem montado.

Chama atenção o fato de vegetais e frutas não aparecerem como o primeiro elemento da pirâmide. Visualmente, o destaque inicial acaba recaindo sobre proteínas e laticínios. Eu gostaria de ver vegetais, verduras, nozes e sementes ocupando esse lugar simbólico central, especialmente quando falamos de crianças e adolescentes.


Em resumo

A nova pirâmide alimentar dos Estados Unidos representa um avanço histórico ao reconhecer o papel central da comida de verdade e ao reduzir o espaço dos ultraprocessados no discurso oficial. Ela acerta ao tirar o foco exclusivo de nutrientes isolados e ao recolocar os alimentos — e sua qualidade — no centro da discussão.

A forma como essas mensagens são levadas para políticas públicas e para a alimentação escolar exige cuidado. Aumentar proteína, gordura natural ou laticínios, isoladamente, não resolve a crise metabólica infantil. O caminho efetivo é reduzir ultraprocessados e ampliar o consumo de vegetais, variedade alimentar e comida de verdade, de forma consistente e viável.

Diretrizes são mapas, não receitas prontas. E mapas só funcionam quando são lidos com contexto, senso crítico e responsabilidade — especialmente quando o destino é a saúde das próximas gerações.